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História da Literatura Portuguesa

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IDADE MÉDIA: SEGUNDO PERÍODO

– SÉCULOS XV-XVI –

 

INTRODUÇÃO

Depois de se calar para sempre, por volta de 1350, a voz do último trovador português, o inicio do século XV ficou marcado pela ausência do culto da Poesia nas cortes de Portugal. Pelo menos assim o atesta a falta de registos de poemas e canções durante a primeira metade do século XV. Ter-se-á perdido algum velho Cancioneiro manuscrito onde porventura esta poesia se recolhera? Ou simplesmente ter-se-á deixado de cultivar a poesia com o desaparecimento dos trovadores?

Casamento de D. João I com Filipa de Lencastre, pintura do século XV - O estabelecimento de uma nova dinastia (a dinastia de Avis) marca uma viragem para Portugal em termos políticos, económicos e culturais.

Casamento de D. João I com Filipa de Lencastre, pintura do século XV – O estabelecimento de uma nova dinastia (a dinastia de Avis) marca uma viragem para Portugal em termos políticos, económicos e culturais.

É verdade que os tempos do início do século XV, voltados para as coisas práticas da vida, não seriam muito favoráveis às quietas manifestações da poesia cortesã: período convulsionado por guerras com Castela, o desenvolvimento da burguesia mercantil, a criação de um novo tipo de nobreza, o desenvolvimento do comércio marítimo e as primeiras viagens de descobrimento pelo Atlântico, nomeadamente a chegada às ilhas dos Açores e Madeira. Só a partir da segunda metade do século XV é que a Poesia volta novamente, e em força – um novo tipo de poesia, designada de “Poesia Palaciana”, mais refinada que a trovadoresca e que reflete o novo tipo de sociedade medieval.

A Prosa, em contrapartida, ganha um forte impulso e novos contornos logo desde o início do século XV. Nasce um novo tipo de Literatura não Ficcional, desenvolvida pelas mãos da realeza que tem um propósito doutrinal e de educação prática, e cria-se a profissão dos cronistas do reino que, a par da recolha dos factos históricos, elaboram crónicas históricas com pendor literário.

Já na Prosa Ficcional verifica-se a curiosa particularidade de se manter, em regime paralelo, a corrente tradicional do Romance de Cavalaria com um estilo novo: o Romance Bucólico ou Pastoril.

A POESIA PALACIANA

A poesia palaciana, assim chamada porque surgiu dentro dos palácios, era desenvolvida por e para cortesãos, retratando usos e costumes da Corte. Sendo desenvolvida no século XV, ficou também conhecida por “Poesia Quatrocentista”. Era uma Poesia destinada a ser recitada durante os serões do Paço (uma denominação para os primeiros tipos de palácios reais), onde também se disputavam concursos poéticos, ouvia-se música, jogava-se e realizavam-se pequenos espetáculos de alegorias ou paródias. Como era tudo feito para ou pelos próprios nobres, estas expressões culturais primavam pelo apuramento dos vestuários, dos gestos, dos penteados e, sobretudo, da linguagem, criando os preceitos e os costumes em que própria Corte depois se regia.
Ao contrário da poesia trovadoresca que era cantada e onde as expressões dos camponeses eram valorizadas, a poesia palaciana era composta para ser lida ou declamada e valorizava a condição aristocrática, de modo que seus autores trabalhavam com maior zelo o poema. Devido a isso a Poesia Palaciana caracteriza-se por ser mais apurada, atraente e variada do que a Trovadoresca. Mas apesar disso, e de desenvolver neste período temas poéticos novos (tal como os feitos históricos), os poetas palacianos não abandonaram os temas comuns aos trovadores medievais, privilegiando a temática amorosa, herdeira do amor cortês, que reitera até ao infinito a dor de amar, a morte de amor, os paradoxos do serviço amoroso, mas numa linguagem poética abstrata, mais silogística que imagética.

A transição dos castelos fortificados, para um novo tipo de morada nobiliástica - os palácios - que abrigavam toda a corte real, deram origem a novas e mais requintadas formas de interação e socialização entre os cortesões, alterando assim a expressão cultural e artística da época.

A transição dos castelos fortificados, para um novo tipo de morada nobiliástica – os palácios – que abrigavam toda a corte real, deram origem a novas e mais requintadas formas de interação e socialização entre os cortesões, alterando assim a expressão cultural e artística da época.

Exemplo de Poesia Palaciana amorosa

“Senhora, partem tão tristes
Meus olhos por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,

Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.”

Assumindo também uma função lúdica e de convívio social, há também a poesia de exploração de acrósticos, enigmas, antítese e jogos de palavras que retratam relações amorosas palaciana — por exemplo: a cantiga de Luís da Silveira dirigida a “uma dama que lhe atirou com uma pedra”, a de João Roiz de Sá a “uma senhora que lhe enviou um sinal que trazia no rosto”, ou a de de Simão da Silveira a D. Joana de Mendonça sobre “uma ave que ela lhe lançou de uma janela”, etc. — a par com a poesia sátira que satiriza tanto pessoas como instituições (sobretudo o clero), e a poesia de intenção cómica, galhofeira, com intenções de provocar o humor e de divertir.

Página do Cancioneiro Geral. Foi uma das primeiras obras em português a ser impressa na nova máquina de Gutenberg. A contrapartida é que as iluminuras não têm cor, como as obras feitas e decoradas à mão.

Página do Cancioneiro Geral. Foi uma das primeiras obras em português a ser impressa na nova máquina de Gutenberg. A contrapartida é que as iluminuras não têm cor, como as obras feitas e decoradas à mão.

Todo o material poético produzido na segunda metade do século XV — nos reinados de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I, — encontra-se reunido no chamado “Cancioneiro Geral”, recolhido, organizado e compilado por Garcia de Resende, homem de variadas aptidões: cronista, poeta, músico, desenhista, arquiteto e moço de câmara (secretário particular) de D. João II.

O Cancioneiro Geral foi uma das primeiras obras impressas em Portugal, quando a tipografia ainda era muito recente, não sendo pois um códice (uma coleção de cópias manuscritas) como o Cancioneiro da Ajuda, da primeira fase medieval. Nele contam-se 880 composições líricas, algumas delas em castelhano (15% aproximadamente), de 286 poetas diferentes incluindo Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro, D. Pedro (Condestável de Portugal), Jorge de Aguiar, Diogo Brandão, além do próprio Garcia de Resende.

Cabe ainda dizer que, quando à forma, a poesia palaciana distinguia-se em quatro diferentes composições:

A Cantiga: expressava temas amorosos, tinha o mote de 4 ou 5 versos ou de uma glosa de 8 a 10 versos.

A Esparsa: expressava tristeza ou melancolia, geralmente, composta de 8 a 16 versos em somente uma estrofe, não tinha mote nem a repetição dos versos.

A Trova: não tinha tema definido, mas devia ter 4 versos ou 8 versos. Eram muito utilizadas tanto em poemas curtos como nos longos.

O Vilancete: composto por um mote de 2 ou 3 versos, seguido de glosa (desenvolve um mote, em geral em tantas estrofes quantos são os versos deste e acabando cada estrofe com um deles).

A PROSA NOBILIÁSTICA

1º página do "Livro de Montaria" de D. João I

1º página do “Livro de Montaria” de D. João I

Página do "Livro de Horas" de D. Duarte I

Página do “Livro de Horas” de D. Duarte I

O novo tipo de prosa literária portuguesa surgida do século XV caracteriza-se por ter um carácter prático, didático e filosófico, ligado sobretudo à classe nobiliástica e ao registo, em crónicas, dos acontecimentos históricos, diretamente ligados às casas reais de Portugal.

O gosto por desportos — como a caça, a prática dos exercícios de destreza e as proezas da força física, como os torneios — que se desenvolvera nos últimos reinados da 1ª Dinastia, sobretudo no reinado de D. Afonso IV, de cognome “O Bravo”, intensificaram-se nos reinados da Dinastia de Avis, criando um novo estilo de vida cortesão. Não é pois de surpreender que que os exemplos maiores do novo tipo prosa literária nascida no século XV, não sejam narrativas fantasiosas e romanceadas, mas sim dissertações, estudos e vivências ligadas ás práticas de ar livre, sobretudo a caça, enquanto arte, desporto e até filosofia de vida; a maior parte com o cunho dos próprios monarcas, escritos com um propósito didático de deixar registado as suas experiências e conhecimentos às gerações seguintes.

São exemplo deste género de literatura o “Livro de Falcoaria” — escrito por Pêro Menino, falcoeiro de D. Fernando, a pedido deste, sobre a arte de amestrar falcões; o “Livro da Montaria” — escrito por D. João I sobre a caça ao Javali, segundo ele a “atividade ideal para o desenvolvimento harmonioso de todas as forças e faculdades do homem”; e o “Livro da Ensinança de Bem Cavalgar toda a Sela” — escrito por D. Duarte sobre as lutas, os torneios, as justas, atividades que segundo o próprio: “robustecem os corpos e forjam as almas destemidas e assim se prepara a sociedade, no alvor dos novos tempos, para os grandes actos de heroísmo...”

Página do livro "Leal Conselheiro" de D. Duarte I

Página do livro “Leal Conselheiro” de D. Duarte I

Página do livro "Virtuosa Benfeitoria” do Infante D. Pedro,

Página do livro “Virtuosa Benfeitoria” do Infante D. Pedro,

Sob o mesmo espírito didático e de dissertação sobre as vivências e experiências nobiliasticas, inserem-se obras de pendor filosófico que se traduzem em ponderações morais, de análise e reflexão, sobretudo tendo em vista a organização de uma sociedade.

São exemplos disto o “Leal Conselheiro” — escrito por D. Duarte que se traduz em apontamentos e meditações morais do próprio rei e das suas filosofias de vida. E o “Virtuosa Benfeitoria” — escrito pelo Infante D. Pedro, com intuitos filosóficos e políticos que procura explicar e justificar a existência de um sistema feudal, apresentando o Mundo como uma pirâmide formada por degraus sucessivos, tendo Deus no vértice e, na base, os irracionais. Diz D. Pedro sobre isso: “A benfeitoria é o benefício concedido – prémio de serviços prestados, pelo superior ao inferior.”

Como se pode depreender, este novo tipo de literatura quatrocentista nada mas é do que uma preocupação de reis e nobres em deixar um legado ás gerações futuras; um desejo muito provavelmente vindo do confronto com a sua noção de mortalidade e da procura de dar validação às suas experiências, aos conhecimentos adquiridos e aos seus próprios reinados. Ideia que fica mais patente com o surgimento dos cronistas e das Crónicas Reais.

OS CRONISTAS

Página da Crónica de D. João I, do cronista Fernão Lopes

Página da “Crónica de D. João I”, do cronista Fernão Lopes

A função do cronista medieval consistia em «pôr em crónica», isto é, ordenar cronologicamente, os relatos de acontecimentos históricos. Esta função não consistia, todavia, num trabalho igual ao do historiado moderno, num sentido ao que hoje se entende por “Crónica Histórica”, que é uma enumeração relativamente rígida dos eventos e dominada pela cronologia. Se as Crónicas medievais tivessem sido assim registadas, teriam pouco valor literário. Mas os cronistas na Idade Média escreviam com profundidade e eloquência, imputando a sua própria análise àquilo que escreviam e muitas das vezes com bastante imparcialidade – sobretudo no relato de conflitos com nações estrangeiras – de modo a agradar ao Rei a que serviam. É por isso que os textos dos cronistas medievais, apesar de serem os melhores documentos de registo histórico da época, constituem-se também como formas de expressão artística literária.

De modo factual, a primeira crónica portuguesa não surgiu das mãos de um cronista do século XV, mas de um príncipe do século anterior – Pedro Afonso, filho de D. Dinis, o Trovador. Chamada de “Crónica de 1344” é uma celebração da história da Península Ibérica (Hispânia) desde o tempo dos reinos visigóticos e do papel destacado e diferenciado do reino de Portugal durante a Reconquista da península aos mouros. Esta obra é, no entanto, um caso singular, por isso considera-se que a historiografia portuguesa inicia-se com a atividade do primeiro cronista real: Fernão Lopes, que viveu durante o reinado de D. Duarte.

Página da "Crónica D. Joao II" do cronista Rui de Pina

Página da “Crónica de D. João II” do cronista Rui de Pina

Da vida de Fernão Lopes sabe-se apenas que teria nascido em Lisboa, entre 1380 e 1390 e que em 1418 desempenhava as funções de guarda-mor dos arquivos reais da Torre do Tombo. Convém anotar, sobre isto, que a Torre do Tombo original era uma das torras do Castelo de São Jorge, em Lisboa, até que foi quase destruída pelo terremoto de 1755, altura em que o arquivo foi mudado, mas levando consigo o nome que ainda hoje persiste.

A função de Fernão Lopes foi mais penosa que a dos outros cronistas que lhe seguiram uma vez que foi encarregado de pôr em crónica os reinados dos dez primeiros reis de Portugal. Infelizmente dessas dez só chegaram até ao nosso tempo três: a Crónica de el-rei D. Pedro, a Crónica de el-rei D. Fernando e a Crónica de el-rei D. João I. As restantes ter-se-iam perdido ou foram — como geralmente se admite —refundidas por cronistas posteriores.

É também no século XV que se desenvolve a Caligrafia Gótica. Esta, apresenta numa carta de foral é um exemplo da caligrafia gótica Portuguesa, denominada "Híbrida", com caracteres bem proporcionais, de forma arredondada e traços geralmente largos

É também no século XV que se desenvolve a Caligrafia Gótica. o exemplo acima, de uma carta de Foral, é um exemplo da caligrafia gótica Portuguesa, denominada “Híbrida”, com caracteres bem proporcionais, de forma arredondada e traços geralmente largos

As Crónicas de Fernão Lopes definiram o modo de escrita e de registo crónico que seriam imitados por todos os seus sucessores. Sabe-se que estava sempre preocupado com a imparcialidade e a veracidade dos factos, pelo menos assim o atesta Eanes de Zurara, o seu sucessor que escreveu: “Recolheu, sempre que possível, a versão oral dos acontecimentos e gastou muito tempo em andar por os mosteiros e igrejas buscando os cartórios e os letreiros delas para ter a sua informação”. Não podemos, no entanto, encarar esse retrato de Fernão Lopes, de cronista rigorosíssimo, com total seriedade. O facto de Fernão Lopes ter que narrar eventos passados sobre os quais não havia testemunhas oculares, levou-o a fantasiar muitos aspetos dos quais ele nunca poderia ter conhecimento e a descrever situações num estilo completamente literário, assumindo o papel de narrador omnipresente e levando o leitor a sentir que ele próprio esteve presente em grande parte dos acontecimentos.

De facto, nas suas crónicas evoca-se todo um mundo agitado e intenso: as ruas e as praças das cidades, percorridas pelas multidões exaltadas; os castelos, cheios do rumor áspero dos combates; os vastos campos de batalha, onde se dispõem os exércitos prontos para a luta; o ambiente das cortes, com as suas intrigas subtis e os dramas de amor e ambição; o desespero quando as cidades eram sitiadas, os tumultos do povo e as aclamações festivas dos populares. É precisamente este estilo literário que acabou por servir de referência aos outros cronistas que lhe imitaram o estilo, fazendo dessas crónicas obras de grande valor literário.

Da longa lista de cronistas reais há a destacar os trabalhos dos cronistas Rui de Pina (1440-1522) e de Duarte Galvão (1446-1517) pelo seu valor literário no modo narrativo.

O BUCOLISMO

Em termos da Prosa ficcional, continuou até ao século XVI o acentuado gosto pelos Romances de Cavalaria. De facto as épocas quatrocentistas e quinhentistas foram prolíficas a produzir muitos romances do género, que contêm, de um modo geral, todos os elementos característicos dos romances dos séculos passados: as aventuras épicas, as florestas e os castelos encantados e princesas prisioneiras; assim como os modelos de honra, de força e destemor dos cavaleiros. A única particularidade a anotar é que nos séculos XV e XVI os Romances de Cavalaria já não são vistos como histórias de aprendizagem do modelo cavalheiresco, mas como histórias passadas em épocas antigas, no qual se dava enfâse aos elementos de aventura para se elevar a imaginação. Por essa razão há também um acentuar de temas fantásticos que envolvem figuras mitológicas como dragões, bruxas ou gigantes.

Dos Romances de Cavalaria portugueses deste período há a destacar:

As Crónicas de Palmeirim

As Crónicas de Palmeirim

— A “Crónica do Imperador Clarimundo” de João de Barros, escrito em 1520, que finge ser traduzida do húngaro, e que conta a vida e feitos do cavaleiro Clarimundo, que chega a ser Rei da Hungria e Imperador de Constantinopla e do qual, segundo o livro, descendem os reis de Portugal. Tem especial importância o episódio de Fanimor, o adivinho, que, do alto do Castelo de Sintra, profetiza os notáveis acontecimentos da história nacional, desde as suas origens até ao início das navegações e que Camões teria utilizado como fonte de inspiração para escrever “Os Lusíadas”.

— O “Palmeirim de Inglaterra”, de Francisco de Morais, escrito em 1544. Divide-se em duas partes a ação do romance. Na primeira parte, Palmeirim vai a Inglaterra salvar o seu pai que se encontra aprisionado no castelo do gigante Dramusiando; na segunda parte Palmeirim regressa a Portugal para tomar o castelo de Almourol, em Santarém, onde a formosa princesa Miraguarda vivia sequestrada por outro terrível gigante. Esta obra, juntamente com o Amadis de Gaula, são as únicas que Cervantes poupa da fogueira, num episódio do seu “D. Quixote”, quando algumas personagens, fartas dos preceitos dos códigos dos antigos cavaleiros, decidem queimar todos os livros do género, mas acabam por poupar essas duas obras pois reconhecem-lhes o valor literário.

— O “Memorial da Segunda Távola Redonda”, de Jorge Ferreira de Vasconcelos, escrito em 1567. A obra surge como uma comédia aventurosa, sendo por isso única no género ao assumir-se como uma espécie de paródia dos próprios romances de cavalaria. A narrativa continua a série romanesca do ciclo Arturiano na qual a segunda Távola Redonda seria a mesa em volta da qual se reuniam os companheiros do rei Sagramor, que sucedera ao rei Artur. Logo no primeiro capítulo do livro, o autor traça uma mirabolante história que junta deuses e heróis da antiguidade greco-latina, Artur e os cavaleiros da Távola Redonda e, por fim, os doze pares de França do ciclo Carolíngio (de Carlos Magno).

Obras, como a acima citada ilustram o início de rutura do gosto por esse género literário. O romance que marcaria em definitivo esta rutura, e cuja história, ironicamente, se centra no próprio definhar dos valores da cavalaria, é o “D. Quixote”, escrito logo no início do século XVII (1605) pelo espanhol Miguel de Cervantes, que influenciaria e mudaria definitivamente toda a produção literária europeia. Mas a sua obra é o aprimoramento e o culminar do processo de transição e da mudança literária ocorrido no século XVI, quando começaram a surgir obras que vinham ao encontro dos gostos da nova sociedade cortesã que já não se identificava com as aventuras de cavalaria.

São João em Patmos, pintura de Álvaro Pires, século XVI, museu da Lourinhã. Os elementos bucólicos, ligados à natureza, começam a surgir em todos os domínio da arte portuguesa, mesmo na pintura, fortemente marcada pela iconografia religiosa.

São João em Patmos, pintura de Álvaro Pires, século XVI, museu da Lourinhã. Os elementos bucólicos, ligados à natureza, começam a surgir em todos os domínio da arte portuguesa, mesmo na pintura, fortemente marcada pela iconografia religiosa.

Um dos grandes fatores de transição literária está ligado à proliferação da Prensa de Gutenberg e da disseminação de traduções de antigas obras de autores greco-latinos como Teócrito e Vergílio. Com eles começa-se a adquirir um gosto pelos clássicos na sua génese ligada à natureza. Desenvolveu-se assim um estilo literário designado de “Bucolismo” – termo oriundo da obra “Bucólicas” de Virgílio que enuncia um ideal de vida ligado ás belezas da vida do campo, à ingenuidade dos costumes e ao quotidiano tranquilo em simples contacto com a natureza.
Este novo género, também chamado de género Pastoral ou Pastoril, privilegia a imagem do Pastor como representante de um mundo natural, simples, de paz e perfeição, no qual não existe qualquer tipo de corrupção. Todo o cenário bucólico pressupõe a descrição de uma utopia passada, altura em que o homem vivia em harmonia com a natureza e antes de sucumbir ao pecado do orgulho.
Chega a ser contraditório o facto de que os membros mais elitistas da sociedade (a nobreza, o clero e a burguesia eram os únicos que sabiam ler), por toda a Europa, tenham vindo a adquirir afeição por temas ligados ao campesinato e à vida simples da natureza, à medida que, paralelamente, vão também ganhando gosto pela opulência que marcaria os séculos seguintes. A resposta a esta questão prende-se com o crescimento da valorização do “Belo” e da “Sentimentalidade” – estes dois conceitos são os grandes impulsionadores de todos os movimentos artísticos que despoletariam daí em diante, nas diferentes manifestações da Arte: na música, na pintura, na escultura e na literatura. No campo literário os Romances de Cavalaria, dotados de ação e fantasia, não permitiam o desenvolvimento de uma escrita que se pretendia que fosse erudita, aclamasse a beleza da Natureza e dos prazeres terrenos e explorasse a sentimentalidade das relações humanas num campo mais realista. O novo romance bucólico, sim.
Alguns exemplos mais relevantes, entre nós, do tipo de Romance Bucólico são: “Consolação às Tribulações de Israel” do judeu português Samuel Usque, escrito em 1553; “Diana” de Jorge de Montemor, escrito em 1554; e a “Lusitânia Transformada” de Fernão Álvares, escrito em 1595. Mas a obra que mais bem ilustra a transição entre o romance de cavalaria e o bucólico é o “Menina e Moça” de Bernardim Ribeiro, que foi o introdutor do Bucolismo em Portugal.

Bernardim Ribeiro (Museu de Évora)

Bernardim Ribeiro (estátua de mármore, museu de Évora)

Bernardim Ribeiro, chamado de “o último bardo português”(*), teria sido um artista ao serviço na corte de D. João II. Sabe-se isso porque doze composições suas encontram-se no Cancioneiro Geral de Poesia Palaciana, compilado por Garcia de Resende. Era conhecido por ser um nato contador de histórias com originalidade narrativa, e gozava de tal apreço em cortes espanholas que um dos seus romances, o “Ao Longo de uma Ribeira”, escrito todo em verso, encontra-se inserida no Cancioneiro Castelhano de 1550 – a única composição em língua portuguesa a lá estar.

[(*) Nota: Os Bardos eram contadores de histórias, entretendo não apenas as cortes senhoriais mas também as populações a troco de dinheiro ou comida. As suas narrações eram alternadas com cantigas que davam dramaticidade à história que contavam. São eles os grandes responsáveis pela criação e difusão das histórias populares. Os bardos antecedem os trovadores e ambos diferem um do outro – os trovadores dedicavam-se à criação de versos e cantigas, enquanto os bardos contavam histórias com princípio, meio e fim. A vantagem histórica que os trovadores tiveram sobre os bardos foi terem deixado registos escritos do seu trabalho; os bardos não. Com um certo sentido diz-se que os trovadores são os antepassados dos poetas e que os bardos são os antepassados dos dramaturgos, razão pela qual é comum dar-se o cognome de “O Bardo” a Shakespeare.]

Páginas de "Menina e Moça" de Bernadim Ribeiro

Páginas de “Menina e Moça” de Bernadim Ribeiro

A sua obra mais famosa, o romance “Menina e Moça”, escrita algures entre 1500 e 1540, e editada, pela primeira vez, anos mais tarde, depois da sua morte, no ano de 1553 em Colónia, na Alemanha, tem a particularidade de, não só, ser o primeiro romance de cavalaria português com pendor bucólico, mostrando a transição de um género para o outro, como também de ser uma das primeiras obras europeias a ter, não apenas uma, mas várias mulheres no papel de protagonistas – algo inédito para a época. Pondo as mulheres na posição de narradoras e a assumir grande parte da ação da história conferiu à obra um cunho acentuadamente feminista. De igual modo deu expressão a um novo estilo literário que explorava uma sentimentalidade e uma emotividade psicológica não conhecidas até então, dando também a mostrar sentimentos de mágoa ou de alegria, não apenas através de palavras mas também através de símbolos da natureza e através de gestos e ações das personagens que davam a entender a profundidade daquilo que sentiam.
A Bernardim Ribeiro cabe ainda a autoria de ser o primeiro a introduzir temas bucólicos e pastoris na poesia portuguesa, criando cenários de natureza idílica com pastores a cantar, a compor versos à mulher amada, a tocar flauta ou a chorar à sombra de uma árvore pela morte de alguém.
Este tipo de poesia bucólica iria depois, em anos posteriores, ser desenvolvida e aprimorada pelos chamados poetas renascentistas, em particular o seu mais ilustre representante: Camões.

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