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Camilo bio1

Camilo Castelo Branco (1825-1890), romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor, foi um dos escritores mais prolíferos e marcantes da literatura portuguesa e talvez a maior figura do movimento romântico. Teve uma existência muito atribulada, com uma vida que conseguiu ser mais mirabolante que qualquer um dos seus romances.

Infância

De nome completo Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, nascido em Lisboa  a 16 de Março de 1825, na freguesia dos Mártires, num prédio da Rua da Rosa (atualmente divido entre o número 5 e o 13).

Casa onde nasceu Camilo Castelo Branco

Casa em Lisboa onde nasceu Camilo Castelo Branco

Oriundo de uma família, pelo lado paterno, da aristocracia de província, com distante ascendência cristã-nova, era filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, homem com uma alcunha hereditária de “O Brocas”.

O pai foi uma figura que esteve sempre envolvida em escândalos e distúrbio, já desde o tempo em que estudava em Coimbra, chegando a estar envolvido em atividades fraudulentas, pelo menos por duas vezes na sua vida, e preso na Cadeia da Relação do Porto, de onde saiu por influências do pai que exercia o cargo de juiz. Depois levou uma vida errante entre Vila Real, Viseu e Lisboa e foi ao longo da sua vida um mulherengo que teve várias amantes.

Uma delas, Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira, filha de modestos pescadores, acabaria por ser mãe de Camilo Castelo Branco e da sua irmã, Carolina. Mas, diz-se que pela imposição da avó paterna de Camilo, que não queria que o nome Castelo Branco estivesse envolvido com alguém de tão humilde condição, Camilo acabou por ser registado como sendo filho de mãe incógnita.

Os pais de Camilo nunca se chegariam a casar e com a morte da mãe, quando Camilo tinha apenas 1 ano de idade, o pai pôs os filhos ao cuidado das várias mulheres com quem se envolvia.

Poucos anos mais tarde, quando Camilo tinha apenas dez anos de idade o pai faleceu. A sua morte não passou despercebida a Camilo, acabando-o por lhe criar, como o próprio diria mais tarde, “um caráter de eterna insatisfação com a vida”.

Segundo alguns, Manuel morreu de cólera, no entanto, outros, incluindo o filho, alegam que morreu louco.

Apesar dos devaneios, Manuel não deixou a sua prole totalmente desamparada. Antes de morrer fez uma escritura de perfilhação, tal era a preocupação com o futuro da prole ilegítima, em que reconhecia Carolina e Camilo como seus filhos. O nome da mãe, no entanto continuou ocultado nos registos.

As economias que fez ao longo da sua vida ficaram para os dois irmãos: do seu espólio fazia parte a Quinta de Montezelos, no Norte; uma casa na Rua da Piedade, em Vila Real, alguns bens modestos e o montante de dois contos de réis.

Juventude

Os dois irmãos, órfãos de pais, foram recolhidos por uma tia de Vila Real que se encarregou de os educar.

Antigo Postal de Vila Real

Vila Real nos finais do século XIX (Avenida Carvalho, vista do Seminário)

Através da tia recebeu uma educação básica irregular dada por dois Padres de província. Formou-se no meio da pacata vida transmontana, lendo os clássicos portugueses e latinos e literatura eclesiástica.

Uns anos mais tarde, com o casamento da irmã Carolina, que era mais velha, foi com ela, sob sua guarda, aos treze anos, para as imediações de Vila Real. A sua permanência em Vila Real acabaria por influenciar muitos contos e novelas, que escreveria mais tarde, passadas em cenário Minhoto, nomeadamente as chamadas “Novelas do Minho”.

Com apenas 16 anos, decide, à revelia da irmã, casar-se com Joaquina Pereira de França, de 14 anos, filha de lavradores, e instala-se com ela numa casa em Friúme, no distrito de Vila Real. O casamento precoce parece ter resultado de uma mera paixão juvenil e não resistiu muito tempo. O jovem casal desentendia-se e discutia frequentemente e demorou menos de um ano para Camilo sair de casa, deixando a esposa, grávida de uma filha, para voltar para a casa da irmã.

Um ano depois de se ter casado (1841) decide que quer entrar para a universidade e para isso muda-se para a terra de Granja Velha para poder estudar com um Padre-tutor e preparar-se para os exames de admissão. Um ano depois consegue ingressar na Escola Médico-Cirúrgica na cidade do Porto.

Revolta da Maria da Fonte

Revolução da Maria da Fonte ou a Revolução Popular do Minho

No Porto, o seu caráter instável, irrequieto e irreverente fá-lo ingressar por uma vida estudantil boêmia e leva-o a amores tumultuosos com Patrícia Emília do Carmo de Barros e uma freira, de nome Isabel Cândida. Tal vida fá-lo descorar os estudos e não chega a concluir o curso de medicina.

Em 1846, publica os seus primeiros trabalhos literários no jornal “O Nacional” no qual passara a trabalhar como amanuense. Esse posto, segundo alguns biógrafos, surge a convite após a sua participação na revolta popular chamada Revolta da Maria da Fonte, ocorrida na primavera de 1846 contra o governo da altura, em que terá combatido ao lado da guerrilha Miguelista (monárquica) contra os liberais (que pretendiam a instauração em Portugal de um regime constitucional.). As suas irreverentes correspondências jornalísticas valeram-lhe agressões físicas na rua por diversas vezes que o levaram ao hospital.

Nesse mesmo ano de 1846, em que passa a viver com Patrícia Emília do Carmo, morre a sua legitima esposa. A filha de ambos morre no ano seguinte. Patrícia Emília do Carmo, por sua vez, engravida, mas a sua relação com Camilo passa então por uma série de desavenças que leva Camilo a romper com a relação e a fugir, novamente, para a casa da irmã, residente nessa altura em Covas do Douro na região de Trás-os-Montes. Tinha então 21 anos.

Em Adulto

Porto Século XIX

Ilustração da Cidade do Porto no século XIX.

Em 1949 volta à cidade do Porto para tentar o curso de Direito. Novamente no Porto segue uma nova uma vida de boémia repleta de paixões, repartindo o seu tempo entre os cafés e os salões burgueses e dedicando-se entretanto ao jornalismo, que o levaria a abandonar o curso de direito.

Em 1850, toma parte na polémica entre Alexandre Herculano e o clero. Alexandre Herculano, liberal convicto e anticlerical escrevera um folheto denominado “A Questão, Eu e o clero”, como forma de denúncia e critica àquela classe. Camilo decide agir em defesa da igreja e escreve o folheto “O Clero e o Sr. Alexandre Herculano” como resposta, no qual ofende o carater de Herculano. A relação entre dois autores só seria retomada, anos mais tarde, de Camilo mudar a sua posição em relação ao clero.

Nesse mesmo ano apaixona-se perdidamente por Ana Augusta Vieira Plácido, uma jovem que está noiva de outro homem: Manuel Pinheiro Alves, um “negociante brasileiro” (na verdade um português que tinha negócios no Brasil) que irá servir de inspiração como personagem em algumas das suas novelas, muitas vezes com caráter depreciativo. Quando Ana Plácido se casa com aquele, Camilo tem uma crise espiritual e ingressa no seminário do Porto em 1851, pretendendo seguir a vida religiosa. Mas o seu tempo no seminário fá-lo ficar desiludido com a vida do clero e isto acabaria por influencia-lo em muitas das suas obras nas quais se denota uma certa critica à vida religiosa. O seu tempo como seminarista dura pouco mais de um ano.

Camilo na Prisão

Representação de Camilo na Prisão da Relação do Porto onde foi preso em 1859

Saindo do Seminário e pondo de lado os paradigmas religioso Camilo decide então seduzir e conquistar Ana Plácido, conseguindo-o, e tendo com esta uma relação adúltera.

Em 1859, depois a alguns anos de amores escondidos do marido desta, decidem fugir os dois. Depois de algum tempo em fuga, são capturados e julgados pelas autoridades. Camilo é acusado do crime de rapto e Ana Plácido do crime de adultério (crime punível na altura). Naquela época, o caso emocionou a opinião pública, pelo seu conteúdo tipicamente romântico de amor contrariado, à revelia das convenções e imposições sociais. Apesar disso, acabaram ambos por ser enviados para a Cadeia da Relação, no Porto, onde o pai de Camilo também estivera encarcerado.

Na prisão Camilo conheceu e fez amizade com o famoso salteador Zé do Telhado, que roubava burgueses com uma quadrilha de ladrões e que participara em várias revoltas políticas. Com base nesta experiência e da amizade que fizera acabaria por escrever “Memórias do Cárcere”.

Ao fim de um ano de prisão, Camilo e Ana Plácido são absolvidos dos crimes que tinham sido condenados (curiosamente pelo Juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai do então muito pequeno, Eça de Queirós), por não existirem provas de adultério consomado e porque a fuga foi feita com intenção das duas partes, não havendo por isso rapto. Camilo e Ana Plácido são então libertados e passam a viver juntos em Lisboa, cidade para a qual se mudam. Camilo tinha então 38 anos de idade.

Maturidade Literária

Estátua de Camilo

Estátua de Camilo e da sua Musa, Ana Plácido, na cidade do Porto

A vida conjugal com Ana Plácido (embora não fossem casados) poderia ter sido mais feliz se não fossem os problemas financeiros. A um filho já existente (que não se sabe se seria de Camilo ou do ex-marido) nascem mais dois.

Com uma família tão numerosa para sustentar, Camilo começa então a escrever a um ritmo alucinante, sendo efetivamente o único escritor de renome da sua geração a ter que escrever para poder sobreviver, pois todos os escritores conceituados da altura provinham de famílias com posses. Isto explica como, em quase 40 anos, entre 1851 e 1890, Camilo tenha conseguido escrever mais de duzentas e sessenta obras, com a média superior a 6 livros por ano, sendo efetivamente o escritor português mais publicado de sempre. Além dos vários romances que lhe deram popularidade, deixou um legado enorme de textos inéditos, comédias, folhetins, poesias, ensaios, prefácios, traduções e cartas – tudo com assinatura própria ou com alguns menos conhecidos pseudónimos (como por exemplo: Manoel Coco, Saragoçano, A.E.I.O.U.Y, Árqui-Zero e Anastácio das Lombrigas) quando escrevia textos polémicos, satíricos ou humorísticos que não queria ver associados ao seu nome.

Em 1863 publica o seu romance mais famoso: “Amor de Perdição” que lhe consolida a reputação como escritor e lhe traz fama a nível nacional. É também nesse ano que morre o ex-marido de Ana Plácido e, tendo o primeiro filho de Ana Plácido, recebido, do suposto pai, a sua casa como herança, muda-se o casal e a sua prole para São Miguel de Seide no Concelho de Vila Nova de Famalicão.

Postal de Póvo de Varzim

Postal restaurado de Póvoa de Varzim nos finas do século XIX. Largo de São Roque e Rua do Pelorinho.

Entre 1873 e 1890, Camilo deslocou-se regularmente à vizinha cidade balnear de Póvoa de Varzim, para se reunir com personalidades de notoriedade intelectual e social da época com quem travava amizade, como o pai de Eça de Queirós, (José Maria de Almeida Teixeira de Queirós) magistrado e Par do Reino que o livrara da cadeia; o poeta e dramaturgo Francisco Gomes de Amorim, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, António Feliciano de Castilho, entre outros.

Outra razão que levava Camilo a deslocar-se com frequência a Póvoa de Varzim eram os salões de jogos e as diversões noturnas que que a cidade oferecia. Conta-se que Camilo nessas idas a Póvoa de Varzim metera-se com uma bailarina espanhola e que tendo gasto, com a manutenção da diva, mais do que permitiam as suas posses, acabou por recorrer ao jogo na esperança de multiplicar o pouco que tinha. Acabou por perder tudo e contrair uma dívida de jogo, que então se chamava uma dívida de honra

Foi numa dessas noites de diversão a Póvoa de Varzim que Camilo viu morrer aos 19 anos, o seu filho mais velho e predileto, Manuel Plácido Pinheiro Alves, por razões desconhecidas.

Entretanto a sua fama como escritor aumentava. Por volta dos anos de 1880 não havia escritor mais famoso e celebrado em Portugal do que Camilo Castelo Branco, tendo inclusive a Academia Real das Ciências de Lisboa chegado a fazer-lhe uma homenagem.

Em 1885 o rei D. Luís I de Portugal, decide conceder-lhe o título de 1.º Visconde de Correia Botelho. Nesse mesmo ano casa-se finalmente com Ana Plácido. Contava então Camilo com 60 anos.

Velhice

Um retrato de Camilo Castelo Branc

Um retrato de Camilo Castelo Branco pelo pintor João Duarte Freitas

Desde 1865 Camilo começou a sofrer de graves problemas visuais, sintomas causados pelo avanço da sífilis (doença venérea), para além de outros problemas neurológicos lhe provocavam uma progressiva cegueira, aflitivamente crescente, que lhe ia atrofiando o nervo ótico, impedindo-o de ler e de trabalhar capazmente. Esta incapacidade visual, aliada às dificuldades financeiras e à sua perceção de que tinha uns filhos incapazes (considera o mais velho um desatinado e o mais novo um louco) davam-lhe enormes preocupações, acentuavam-lhe o mau feitio e faziam-no mergulhar numa profunda depressão.

Ao longo dos anos, Camilo consultou os melhores especialistas em busca de uma cura para a sua vista, mas em vão. A 21 de Maio de 1890, dita esta carta ao então famoso oftalmologista aveirense, Dr. Edmundo de Magalhães Machado:

Illmo. e Exmo.

Sr., Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país durante 40 anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego. Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas. Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Exa. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança. Poderá V. Exa. salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso. Mas poderá V. Exa. dizer-me o que devo esperar desta irrupção sanguínea nuns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue?

Digne-se V. Exa. perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia.

A 1 de Junho desse ano, o Dr. Magalhães Machado visita o escritor em Seide. Depois de lhe examinar os olhos condenados, o médico com alguma diplomacia, recomenda-lhe o descanso numas termas e depois, mais tarde, talvez se poderia falar num eventual tratamento. Quando Ana Plácido acompanhava o médico até à porta, eram três horas e um quarto da tarde, sentado na sua cadeira de balanço, desenganado e completamente desalentado, Camilo Castelo Branco disparou um tiro de revólver na têmpora direita para se suicidar.

Mesmo assim, sobreviveu em coma agonizante até às cinco da tarde. A 3 de Junho, às seis da tarde, o seu cadáver chegava de comboio ao Porto e no dia seguinte, conforme a seu pedido, foi sepultado perpetuamente no jazigo de um amigo, João António de Freitas Fortuna, no cemitério da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa. Tinha 65 anos.

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Sobre o Autor

Desenho de Camilo Castelo BrancoCamilo foi um dos mais brilhantes cultores do romance de costumes contemporâneos da época e da novela passional; o mais fecundo polígrafo e talvez o mais opulento e vernáculo prosador da nossa literatura, quase sempre com uma profunda sintonia com as maneiras de ser e sentir do povo português da sua época. Cultivou, além do romance e da novela, o conto, o teatro, a poesia, a história, a polémica, a crítica literária e outros géneros menores. Foi no romance que Camilo mais se notabilizou com um estilo predominantemente romântico, no entanto, não o foi exclusivamente.

O conjunto da sua obra, vasta e extensa, para além de ser um espelho das suas vivências e experiências de viva são também um reflexo da sua mentalidade, da sua perceção moral e das preocupações que determinaram certo ponto da sua vida. Se nos inícios da sua carreira literária as suas obras mostram defender os ideais conservadores ou tradicionais, desaprovando os que lhe são contrários, isso atenuo-se progressivamente ao longo da sua vida.

Camilo segue o estilo romântico porque esse era o estilo literário da sua época e porque nunca esteve interessado em revolucionar ou transformar a literatura. Se há elementos realistas na literatura de Camilo de denúncia e crítica social, foram feitos sem a consciência de o serem, no entanto surgem com as devidas preocupações sociais e moralizante que Camilo, obviamente quis passar nas suas obras, apesar de serem mais atenuadas que qualquer obra do movimento realista que surgiu ainda na sua vida.

Escrita de Camilo

Caligrafia de Camilo, num rascunho poético, datado de 1859

Quando o jovem escritor Eça de Queiroz publica a primeira versão do seu livro “O Crime do Padre Amaro”, já depois da sua exposição nas Conferências do Casino acerca do Realismo como nova expressão da arte, isso faz com que Camilo, de certa maneira, sentindo-se a perder terreno para o único prosador que podia ser seu rival, procure ser mais “realista” no seu estilo. O resultado (em duas novelas, Eusébio Macário e A Brasileira de Prazins), é de um certo efeito cómico, porque Camilo, com a sua particular maneira de escrever, não se contém e acaba por fazer uma paródia do realismo e do naturalismo.

No entanto, no prefácio de Eusébio Macário, Camilo afirma que não tentou ridicularizar a escola realista e alega:

«Tenho sido realista sem o saber. Nada me impede de continuar». E ainda: «Eu não conhecia Zola;(*) foi uma pessoa da minha família que me fez compreender a escola com duas palavras: “É a tua velha escola com uma adjetivação de casta estrangeira, e uma profusão de ciência (…) Além disso tens de pôr a fisiologia onde os românticos punham a sentimentalidade: derivar a moral das bossas, e subordinar à fatalidade o que, pelos velhos processos, se imputava à educação e à responsabilidade” compreendi e achei eu, há vinte e cinco anos, já assim pensava, quando Balzac tinha em mim o mais inábil dos discípulos.»

[(*) Émile Zola, escritor francês, considerado o criador e representante mais expressivo da escola literária realista e naturalista que marcou e influenciou toda uma geração de escritores europeus e pelo mundo fora.]

Há ainda a dizer que este magnífico romancista nem sempre foi, porém, um artista impecável: a rapidez extraordinária com que escrevia originou uma certa fraqueza, não só na conceção, como na execução de alguns dos seus livros; o acanhado meio social que neles soube retratar, dada a pouca variedade de caracteres que o compunham, determinou, como é óbvio, uma certa monotonia em alguns romances, tal como uma certa cópia de estruturas narrativas.

O que não invalida, todavia, o que acima ficou dito acerca do seu vigor de romancista, da sua inigualável vernaculidade, do seu veemente sarcasmo tão português, da sua poderosa capacidade de artista que lhe permitiu versar, os mais variados géneros literários com fulgor genial. E, apesar de toda a vasta obra literária de intensa e apressada produção, Camilo não deixou que isso prejudicasse a sua beleza idiomática ou mesmo a dimensão do seu vernáculo, transformando-o num das maiores expressionistas artísticas e num mestre da língua portuguesa.