
Conjunto de poemas da poetisa Alcipe, pseudónimo de D. Leonor, mais conhecida pelo seu título nobiliárquico: Marquesa de Alorna.
Deitei-me sobre a fresca relva um dia,
E dando a um sono leve alguns instantes
Com os prazeres sonhei, que lá distantes
Debuxava a estragada fantasia.
D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, mais conhecida por Marquesa de Alorna, foi a primeira poetisa portuguesa, escrevendo e publicando obras líricas numa altura em que às mulheres era, em grande parte, vedado a publicação de trabalhos literários próprios.
Teve o grande infortúnio de fazer parte da família dos Távora – umas das mais ilustres Casas nobiliárquicas de Portugal a quem o Marquês de Pombal perseguiu com a justificação de terem conspirado num atentado para matar o rei D. José I. Assim, com apenas 8 anos viu a sua avó, a marquesa de Távora, ser decapitada e os seus tios e primos serem queimados vivos, numa execução pública em Belém. Os seus próprios pais foram presos, acusados de serem cúmplices (de um atentado que nunca ocorreu) e ela, por ser demasiado nova, encerrada no mosteiro de Chelas de onde sairia apenas 19 anos mais tarde, após a morte do Marquês do Pombal e da ordem de libertação mandada pela rainha D. Maria I.
No recinto eclesiástico, onde viveu toda a sua juventude, ocupou o tempo com a leitura, com a música, a pintura e sobretudo com a poesia. Beneficiando da proteção e influência de amigos da família teve a oportunidade de estudar, onde lhe foi dado como professor alguém que viria a ser um dos mais notórios e famosos iluministas portugueses – o sacerdote Francisco Manuel do Nascimento, mais conhecido depois por Filinto Elísio. Não só foi ele o responsável pela sua formação na corrente literária do arcadismo (também chamada de neo-classicismo), como também alimentou as suas precoces tendências filosóficas, cientificas e progressistas dando-lhe a ler as obras de Rousseau, Voltaire, Montesquieu, Pierre Bayle e até a Enciclopédia de D’Alembert e Diderot, Foi ainda ele que a batizou com o pseudónimo de “Alcipe” – nome de uma das filha de Marte, o deus romano da Guerra – alcunha pela qual assinou a grande maioria dos seus poemas.
Quando, por fim, foi libertada, gracejou de grande fama na sociedade; o prestígio do infortúnio que sofrera, a altivez que tivera por nunca ter escrito uma linha sequer a ninguém a pedir piedade e liberdade em 19 anos de cativeiro e por ter afrontado as iras do Marquês de Pombal, tornaram-na num ícone da altura, digna de consideração e respeito. Tal fama deu-lhe assim oportunidade de publicar o seu primeiro livro de poesias que reunia algumas das poesias realizadas durante o seu cativeiro em Chelas.
Em 1779, casou com um oficial alemão naturalizado português, o conde de Oeynhausen (Os padrinhos de casamento foram os próprios Reis: a monarca D. Maria I e o rei consorte D. Pedro). Com ele viajou praticamente por toda a Europa e chegou a viver em Viena, Berlim e Londres, desenvolvendo aí o gosto pela poesia sentimentalista e descritiva, traduzindo ou imitando o estilo de Delille, Wieland, Buerger, Goëthe, Young, o pseudo-Ossian, Gray e Thomson.
De regresso a Portugal instalou-se nas suas propriedades em Almeirim, em Almada e em Benfica, onde foi estimada pelos benefícios que dispensava aos pobres; em Almeirim, por exemplo contratou uma mestra para ensinar às prostitutas da vila e das povoações vizinhas a ler, escrever e a coser.
Foi também a grande patroneia cultural do seu tempo, dando bolsas a vários artistas da época e promovendo, nos seus salões de S. Domingos de Benfica, encontros e colóquios literários, sendo estes frequentados por escritores e literatos de diversas gerações, desde os últimos poetas árcades, como Bocage, até aos primeiros românticos como Almeida Garrett e Alexandre Herculano. Desses encontros literários nasceram muitas das ideias estéticas que perduraram no século seguinte. A sua participação nas discussões aí decorridas conferiram-lhe o título da mulher mais intelectual de Portugal e tornaram-na na musa de muitos escritores e poetas do seu tempo; Bocage, por exemplo, dedicou-lhe vários poemas de amor.
Dando sentido ao seu pseudónimo “Alcipe”, que relega para a ideia de uma mulher guerreira, foi também a fundadora de uma sociedade secreta chamada “Sociedade da Rosa” – uma organização por ela financiada, concebida para frustrar a ameaça napoleónica, não só em Portugal mas por toda a Europa. Sobre isto escreveu o seu neto, o marquês de Fronteira, nas suas memórias:
“Minha Avó odiou toda a sua vida as sociedades maçónicas e detestou os jacobinos, porque tinha sempre presente à imaginação as cenas de horror que presenciara em Paris e Marselha, onde esteve na época do Terror da Revolução francesa.
Daqui resultou que esta tivesse o pensamento de organizar uma associação que intitulou a Sociedade da Rosa, com o fim de combater as ideias daquela Revolução e as sociedades secretas, por meio de outra sociedade secreta.
Apesar dos esforços empregados por meu Pai para afastar minha Avó do seu intento, a associação progrediu e muitas pessoas nela se filiaram. Meu Bisavô, o Marquês de Alorna, que ainda vivia, e a quem dezoito anos de prisão nos segredos do forte da Junqueira tinham tornado prudente, pregava de missão contra tais reuniões; mas nada conseguia.”
Para além de escritora, filósofa e poetisa, foi também pintora. Quando foi nomeada dama de honor da rainha de D. Carlota Joaquina foi encarregada de elaborar os desenhos para a decoração do Palácio da Ajuda por ter dado amostras de grande talento na área. Não chegou a concluir a tarefa, mas realizou várias pinturas que ficaram a decorar os salões do Palácio até este arder, altura em que grande parte se perdeu.
A morte do marido em 1793, deixou-lhe seis filhos para criar; situação agravada pela descoberta de que estivera envolvida no assassinato de um general francês: Henry Forestier. Isto obrigou-a a fugir do país, rumo a Londres, onde tomou conhecimento da invasão de França em Portugal e da fuga da família real para o Brasil. Em Londres passaria extrema dificuldade e carência e foi impossibilitada de ir para o Brasil juntar-se à familia real pois o seu irmão, D. Pedro de Almeida, general do exército português, vira-se forçado a juntar-se ao exercito de Napoleão após a invasão, ficando pois a ser visto como um traidor. Somente após a morte do irmão lhe foi concedido regressar a Portugal. Ela passaria os anos seguintes a tentar limpar o nome do seu irmão, assumindo para si mesma, o título de marquesa de Alorna, previamente dado ao irmão, algo que lhe foi oficialmente dado em 1934 pela rainha D. Maria II, juntamente com a banda da ordem de Santa Isabel.
Os seus poemas (mais de 1000, no total) encontram-se entre os mais belos exemplos de composições poéticas portuguesas do século XIX, inseridos no movimento do Neo-clássico onde as referências à mitologia greco-romana são uma constante. O seu trabalho lírico encontra-se dividida entre os mais variados subgéneros e estruturas formais poéticas: epístolas, odes, sonetos, éclogas, elegias, canções, apólogos e epigramas.
Para além de escrever em português, escreveu também em francês, inglês, alemão e latim.
Esta obra que aqui dispomos reúne alguns dos seus melhores trabalhos poéticos.
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