
Chico, ao passear um dia na sua bicicleta pelas imediações de uma floresta, encontra dois meninos a brincar. Franz (um rapaz alemão) e Dick (um rapaz inglês), são duas das muitas crianças de toda a Europa que foram mandadas, pelos pais, para Portugal durante a Segunda Guerra Mundial, pois o país posicionara-se como neutro ao conflito e apresentava-se como um local seguro a ataques armados. Completamente alheios à guerra dos pais, as crianças brincam entre si e acabam por entrar pela floresta adentro. Sem se aperceberem, entram num mundo diferente, fantástico, povoado por personagens estranhas, como dragões voadores, robôs amáveis e animais falantes. Como uma espécie de matriarca desse mundo vive aí a Dona Redonda que em companhia dos rapazes, da sua amiga Dona Maluka e de uma menina de cor chamada Zipriti, vai viver uma série de peripécia mirabolantes.
Dona Redonda, levando a mão aos cabelos — Isto? Isto não quer dizer nada. Há gente nova muito mais velha do que eu. O que conta é por dentro.
Dick — Mas por dentro não se vê!..
Dona Redonda — É preciso termos olhos para ver o que não se vê, e ouvidos para ouvir o que não se ouve.
Publicada em 1942, esta obra têm a particularidade de ser o primeiro romance de literatura fantástica infantil (*) de um autor português e faz parte de uma série de dois livros.
[(*) É preciso ter atenção à distinção entre o género do conto fantástico infantil – no qual se inserem os contos de fadas – e as obras romanceadas que são mais extensas e complexas. Antes do século XIX as obras infantis eram praticamente inexistentes; as primeiras produções literárias para as crianças surgiram sobre a forma de contos, muitos ligados aos contos populares ou folclóricos, e foi através deles que se desenvolveu, e ainda desenvolve, grande parte da literatura infantil. O primeiro romance literário que se enquadra neste género foi “O Quebra-Nozes” (1816) do alemão E. T. A. Hoffmann, mas o género só começou a ter fama depois do inglês Lewis Carroll ter publicado o “Alice no País das Maravilhas” (1865). Em língua portuguesa o primeiro romance do género não veio de Portugal, mas sim do Brasil; é o “Reinações de Narizinho” (1931) do brasileiro Monteiro Lobato, o primeiro livro da série “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”, cujos direitos de autor, infelizmente, ainda não caducaram para o podermos disponibilizar.]
Virgínia de Castro Almeida, a autora desta obra, foi uma pioneira nas artes do século XX em Portugal, sendo, não só uma das primeiras pessoas responsáveis pelas primeiras produções cinematográficas, como também a primeira mulher a assumir a posição de produtora de cinema. No campo da literatura foi uma das principais responsáveis pela implementação da literatura infantil em Portugal, partilhando o título com a colega Ana de Castro Osório.
Inspirada, como a própria o afirma no prefácio, na obra de Lewis Carrol, Virgínia de Castro Almeida elaborou uma história ao estilo do “nonsense”, ou seja, sem sentido; onde os acontecimentos e situações ocorrem sem grande explicação ou propósito e onde as personagens deambulam de peripécias em peripécia com o mero objetivo de estimular a imaginação e a criatividade. Como a mesma o diz: onde “o maravilhoso, o sonho, a fantasia, o génio, fundem-se e animam a matéria.”
A obra, no entanto, não é isenta de falhas, sobretudo quando analisada sob o
olhar contemporâneo: É imperdoavelmente e desnecessariamente racista! E essa é uma das grandes razões pela qual esta obra foi ao longos dos tempos esquecida e posta de lado. Não é um racismo violento ou cruel mas sim perturbantemente embaraçante para os dias de hoje. As personagens de Zipriti e de Bonda são personagens horrivelmente caracterizadas como estereótipos boçais daquilo que era o imaginário do africano durante a época esclavagista, com características anormalmente disformes e dotados de pouca inteligência. Podemos culpar Virgínia de Castro e Almeida por esta visão etnocêntrica e racista, mas também devemos culpar a sua época pois era comum e prolifera, por todo o mundo ocidental, essa imagem do africano caricatural, em cartazes, posters, ilustrações bonecos e até filmes. Um dos exemplos mais famosos e usados para ilustrar exemplos deste tipo de preconceito que existia na época é o “Golliwog”, um personagem da série “As aventuras do Noddy”.

Contém as ilustrações originais
É também de apontar a particularidade da escrita da autora, em que as linhas de diálogo são precedidas com a indicação do nome da personagem, tal como se de uma peça de teatro ou de um guião de cinema se tratasse. Esta particularidade tem a ver, claro, com a influência da autora no cinema, mas não só. É também um estilo imitado da escritora francesa conhecida por Condessa de Ségur que Virgínia de Castro Almeida leu avidamente enquanto viveu em França entre 1918 e 1922 e que acreditava facilitar a leitura às crianças.
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